terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Sem jeito

Balbuciou inseguras palavras, confundiu-se, sabia onde era aquela rua, estava no próprio bairro, porém não conseguiu explicar, nunca consegue dar referências, teve que dizer: " Dá uma perguntada ali na frente". Que vergonha.
Faltou sim àquela reunião importante. Não notaram sua ausência. Na Reunião seguinte foi o primeiro a chegar. Desconfio que não deram por ele. Pode andar durante horas no meio duma multidão sem ser notado, ainda não olharam profundamente em seus olhos, nem superficialmente andam olhando. Acostumou-se à indiferença alheia.
Num raríssimo momento de coragem encheu-se de confiança e foi falar com a menina bonita dos tempos do colégio, ela tinha a mesma quantidade de hormônios, sorriu porque se lembrava até do sobrenome dela. A garota achou curiosa a memória dele, mas não se lembrou, apressou-se na despedida e ele ficou sem jeito.
Jeito, é isso que lhe falta. Ele não tem molejo, não se encaixa, inadaptável. Arrumar uma bela garota? Difícil, até não sendo bela. Manter uma mulher? Impossível. Não aprendeu a linguagem dos namorados, corre o risco de nunca aprender.
Nunca recebeu uma carta de amor, sequer um bombom. Alguém o levaria a uma ilha deserta? Que lástima. SMS só de operadoras, ligações somente oferecendo cursos inúteis, invisível.
Não é charmoso, nem bonito, nem muito inteligente, não venceu na vida nem vencerá.
Peço para que se o virem na rua tentem convencê-lo a não fazer o que planeja, demontrem alguma espécie de carinho, de certo ele vai gostar.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Aos Meus Irmãos.

O excesso de Deus assusta.
Assusta até Deus.

sábado, 18 de julho de 2009

Terra e Saudade

A grande porta se abre mais uma vez para acolher inevitavelmente mais um. Dar um ponto final definitivo ao incoerente texto da existência, não se importando no quanto foi ou no quanto falta da vida, encerra-a concludentemente.
Outrora a névoa de mistérios que o outro lado mostrava era motivo de pensamentos lancinantes, noites perdidas, teorias e religiões. Agora, vendo-te na horizontal segurando um terço por entre as mãos frias, imóvel num sono sem amanhecer, enfeitada por flores em coroas e aquecida pelas velas; digiro amargamente o recente mistério que é o avesso da dúvida universal: a angústia já não é o outro lado da porta, o infinito(desconhecido). É, deliberadamente, o lado de cá, o finito(conhecido?), ficar e ter de continuar, sozinho.
Eu sempre soube que iria estar só no dia da grande despedida, não há culpados, nunca quis que fosse assim, mas quem enxugaria o chafariz das minhas pálpebras? Hoje, nessa noite de óbito, por mais longo e quente que seja o abraço condolente, sei o quanto ele dura e que congelará na solidão do meu quarto, quando em agonia eu tropeçar nas lembranças. Somente "eu" daqui pra frente, vácuo inexorável. Tomo mais café com gosto de velório, celebrando o fim, discursando o silêncio, enchendo a sala de vazio.
Oito horas da manhã. Sérios homens num movimento banal e pragmático carregam o caixão rumo ao paraíso. Sem histeria, sem exageros, nem excessos, explicitando ainda mais minha fraqueza acompanho de longe essa coreografia, muito longe; sem reação, sem pensamentos, longe de mim; desmaiado sem tombar, submerso em minha dor.
Segue-se então uma carreata fúnebre que só pára quando chega ao "Jardim da Saudade". Céu limpo de um azul marítimo contrastando com a ocasião. Meus olhos gastos acompanham incredulamente o trabalho das pás que, com terra e saudade, enterram mais um sonho que se foi.
Cerimônia encerrada, mais abraços e promessas de companhia, quase não escuto.
De volta para a casa vazia, a sensação que o mundo ignora meu luto é um convite ao poço. Durmo com um sabor de morte no espírito, sabendo que acordar é sofrer e que a vida é triste.
Independente a tudo, anoitece com milhares de estrelas no céu, que são almas daqueles que se foram - a ideia me consola - e a lua com seu brilho maternal cristaliza-se no meu pranto diluído de melancolia e desespero, desfaço-me outra vez...

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Sábia Estrela

Entre tapinhas nas costas: cordialidade formal
a gente toda olha sorri e acha normal.
Mas na amplitude do silêncio
quando as horas são de vazio imenso.

Há sempre uma estrela que diz:
"Acorde meu filho, é impossível ser feliz."

LEMBRANÇA DE UM ESQUECIMENTO

Eu trabalho, tento fazer versos e durmo
Tentando ignorar seu mundo
Na estrada a caminhar
Andando sem sair do lugar.

No sacrifício imenso de te esquecer
Olho essas linhas que lembram você.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

ANA CLÁUDIA

Como pude ainda não ter escrito nada sobre Ana Cláudia, que só por possuir esse nome já deveria ter recebido vários versos de poesia, encantados de exuberante magia. Uma canção antiga seja entoada a essa jovem flor que me faz perder a razão diariamente, e que todo Amor que há na terra seja expresso nessas linhas mal traçada a você, Ana Cláudia...
Está com 21 anos, a precoce garota, que beijou pela primeira vez aos 12, teve um namorado mais velho aos 13 e com 15 anos já era mulher, no bom e no mal sentido, como queiram.
Mora numa casinha alugada na zona Norte de Sorocaba, os quatro cômodos pequenos, são divididos entre ela, a mãe, a avó e a irmãzinha de 11 anos. Pai? Bem, seria necessário outro texto só para comentar o assunto, mas Ana nem gosta de falar sobre, não serei eu a contrariá-la.
Ana Cláudia - pronunciaria esse nome por horas a fio - tem cabelos de nereida, poderia estrelar, sem muitos truques, um comercial de condicionador, tamanho o brilho e negrume de suas sedosas madeixas. Seus dentinhos são levemente salientes (mesmo depois de ter usado aparelho fixo durante anos) obrigando-a fazer biquinho toda vez que fecha a boca, difícil não sorrir diante de uma Ana séria, concentrada, ostentando espontaneamente um distraído e comovente biquinho.
Contribui quinzenalmente para o crime, adquirindo CDs e DVDs piratas “original é muito caro, um absurdo” a última vez que foi ao centro da cidade levou para casa o Cd do “Roupa Nova Acústico” e uma qualquer comédia romântica, dessas com finais parecidos. Chorou lendo o Best seller “Marley e Eu”, porém o autor que ela gosta mesmo é o genial Dan Brow, mistério e suspense; Ana fica sem fôlego.
Trabalha numa loja de roupas, o salário não é tão ruim e a comissão ajuda bastante; é claro que Ana sempre acaba gastando mais do que pode, sua coleguinha revendedora da Avon está enriquecendo nas custas da garota, que é consumidora assídua da indústria da beleza, mas ao final do mês ela sempre dá um jeito e as contas, principalmente o aluguel, são pagas sem atraso; sua mãe, que trabalha como doméstica num condomínio fechado, pega no pé da menina, chamando-a de compulsiva, consumista, mas no fundo sente muito orgulho da filha, percebe todo seu esforço e sua luta.
Ana é ligada em astrologia, consulta diariamente seu horóscopo, é do signo de Câncer; tem todo um lado transcendental, espiritual e místico, crê em energias e reencarnação (andou lendo uns romances espíritas, psicografados pelo espírito Lucius), tem em seu quarto um quadro da Iemanjá.
Gosta também de toda espécie de adornos que o corpo possa adquirir: bijuterias, brincos, correntinhas, piercing (nariz, umbigo e orelha), os hippies do centro são um dos comerciantes que a chamam pelo nome. Vai fazer uma Tatoo, está na dúvida entre fadinha, borboletinha ou estrelinha; independente do desenho vai fotografar e em seguida colocar as fotos no Orkut, sabe-se lá o que ela mais deseja: a Tatoo ou as fotos. Acha um luxo usar All Star, camisetinha e jeans. Seu estilo está entre desencanada, despojada e independente, é claro que acima de tudo opta por estar sempre simples, simples como a vida deve ser.
Branquinha, magra, delicada, metro e sessenta de altura, nem parece que come uma barbaridade quando está brava, ansiosa ou deprimida; sorvetes e lanches do Mcdonalds são terapêuticos para Ana que de uns tempos para cá tem andado um tanto quanto desiludida com os homens, “todos mentirosos e imaturos”, o último namorado prometeu o céu e as estrelas e acabou sumindo na claridade do dia, por isso mesmo que a garota anda fugindo das balanças ultimamente, em pensar que ela exigiu tão pouco daquele estúpido, queria ter sido apenas amada, deixa para lá.
Passou a virada de ano na praia, não conhecia Ilha Comprida, adorou, dançou como nunca e nem gastou tanto, se tudo der certo esse ano vai passar lá novamente.
Ana Cláudia não é só esmaltes, tintas de cabelos e brilhos labiais. Ela é a dura e bela rotina, que sai de casa sem sol e volta sem lua, que encontra tempo para sorrir, cantar, abraçar e chorar com a mesma intensidade brusca de sempre. É ela quem ouve e consola a amiga que brigou com o namorado; é ela quem pega ônibus lotado todo dia, e vez por outra até consegue dormir, imenso o cansaço; é ela quem comprou celular para a mãe, irmã e só não para a avó porque a velhinha está meio surda; é ela quem me deu forças para encarar os obstáculos das coisas que eu julgava grande e para ela faz apenas parte da trivialidade da vida; é dela esse texto:
“Perfeito o exercício que minha língua faz para clamar seu nome, Ana Cláudia, essência pura, viva e constante de pessoa na qualidade de Mulher, seu nome está tatuado a batom na minha pele, para sempre Ana Cláudia...”

domingo, 12 de abril de 2009

Bagaça Voadora


Talvez o titulo desse texto não lhe tenha transmitido muita confiança, achará ainda que tal título soa estranho, de mau gosto. Porém talvez consentirá que Bagaça Voadora(B.V.) é no mínimo engraçado.
Mas, Oh céus, o que significa B.V.? Diz respeito ao nome que batizamos nosso lendário time de futebol. Erámos formados por jogadores que estudavam na escola Prof° Francisco Coccaro, especificamente moradores do "Bairro Éden", garotos com idade entre 12 e 15 anos, que todos os sábados se propunham a acordar cedo para correr atrás de uma bola.
O elenco da B.V. (e que elenco!) era constantemente alterado: Mike, Dolivar, Ageu, Alan e Gerson(os irmãos), Rafael(chucrela), Tácio; eram os possíveis jogadores; é claro tinham os fixos, a gasolina do time, não por jogarem bem, mas por dar importância àquele momento desportivo, os dois saudosistas antecipados: Dersão e Eu.
Como dois detalhistas, antevíamos a futura nostalgia e sabíamos dar pela importância daqueles sábados da década de 90. Fazíamos questão de entrar em quadra todo final de semana para jogar sempre com nosso memorável time, que eu não me lembro se era uma equipe de vitórias ou derrotas. Aquela máxima mentirosa que diz que o importante é participar, talvez faça agora sentido entre essa lacuna de tempo, principalmente em se tratando de B.V.
Bagaça Voadora, nome inspirado numa música de rock, belos tempos aqueles em que se valia a pena esperar pelo final de semana. Retornávamos à segunda-feira calmamente, sem neuroses e crises modernas, um ciclo sutil que só a juventude pode proporcionar.
Contudo, o time acabou, esse fim nunca foi verbalizado, ficou tão somente subentendido. Desde então já não espero pelos finais de semana como antes, ele chega indiferente, sem avisar nem se despedir; não corremos mais atrás de bolas, corremos atrás de dinheiro para pagar as contas. Nossa juventude, será que num campo improvisado ela joga perpetualmente em algum lugar do passado? Não espero, digo isso com muita serenidade de espírito e uma resignação que brota na memória e se transfigura no rosto.
Adeus Bagaça Voadora, voe para bem longe...

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Longa Noite

Os sonhos (acordado) se configuram na noite
é nela que planejo, que projeto, que perco o sono que nunca perdi na noite
Na noite eu mudo o percursso - talvez retome na manhã seguinte - para na noite posterior desejar diferente... ou igual.
Na noite confecciono frases para num dia dizer, ou nunca.
O mundo cabe no meu quarto na noite
O mundo na noite é meu quarto vazio e pequeno

O mundo numa noite é só um dia
Um dia numa noite é só uma vaga sensação, vaga lembrança
saudade ou alívio
O mundo, a vida, o tudo nesse espectro noturno é apenas esquecimento
Sonhar e esquecer! Esquecer que numa noite a escuridão será eterna.