sábado, 18 de julho de 2009

Terra e Saudade

A grande porta se abre mais uma vez para acolher inevitavelmente mais um. Dar um ponto final definitivo ao incoerente texto da existência, não se importando no quanto foi ou no quanto falta da vida, encerra-a concludentemente.
Outrora a névoa de mistérios que o outro lado mostrava era motivo de pensamentos lancinantes, noites perdidas, teorias e religiões. Agora, vendo-te na horizontal segurando um terço por entre as mãos frias, imóvel num sono sem amanhecer, enfeitada por flores em coroas e aquecida pelas velas; digiro amargamente o recente mistério que é o avesso da dúvida universal: a angústia já não é o outro lado da porta, o infinito(desconhecido). É, deliberadamente, o lado de cá, o finito(conhecido?), ficar e ter de continuar, sozinho.
Eu sempre soube que iria estar só no dia da grande despedida, não há culpados, nunca quis que fosse assim, mas quem enxugaria o chafariz das minhas pálpebras? Hoje, nessa noite de óbito, por mais longo e quente que seja o abraço condolente, sei o quanto ele dura e que congelará na solidão do meu quarto, quando em agonia eu tropeçar nas lembranças. Somente "eu" daqui pra frente, vácuo inexorável. Tomo mais café com gosto de velório, celebrando o fim, discursando o silêncio, enchendo a sala de vazio.
Oito horas da manhã. Sérios homens num movimento banal e pragmático carregam o caixão rumo ao paraíso. Sem histeria, sem exageros, nem excessos, explicitando ainda mais minha fraqueza acompanho de longe essa coreografia, muito longe; sem reação, sem pensamentos, longe de mim; desmaiado sem tombar, submerso em minha dor.
Segue-se então uma carreata fúnebre que só pára quando chega ao "Jardim da Saudade". Céu limpo de um azul marítimo contrastando com a ocasião. Meus olhos gastos acompanham incredulamente o trabalho das pás que, com terra e saudade, enterram mais um sonho que se foi.
Cerimônia encerrada, mais abraços e promessas de companhia, quase não escuto.
De volta para a casa vazia, a sensação que o mundo ignora meu luto é um convite ao poço. Durmo com um sabor de morte no espírito, sabendo que acordar é sofrer e que a vida é triste.
Independente a tudo, anoitece com milhares de estrelas no céu, que são almas daqueles que se foram - a ideia me consola - e a lua com seu brilho maternal cristaliza-se no meu pranto diluído de melancolia e desespero, desfaço-me outra vez...

10 comentários:

  1. Novamente tomas posse de intelecta cordialidade, onde o singelo virou belo e as profundezas do mistério muta-se na clareza pragmática.

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  2. Não existe um destino, apenas caminhos diferentes. Algumas escolhas são fáceis outras não, mas as que realmente importam são aquelas que nos definem como pessoas.

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  3. Valeu Dersão, valeu Cá...Que belos comentários...

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  4. Adorei...

    Vou virar seguidora viu, faz falta pessoas que se importem com as coisas importantes da vida!
    Ler e escrever é mais que um hobby é uma paixão!! Adorei, visite meus blogs tb!

    Bjsss

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  5. Adorei!!! Me trouxe lembranças... Beijos

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  6. Paisagens oníricas entrepostas a cenários contemporâneos e subjetivos. Adorei o texto, Vital. Parabéns!

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  7. Valeu Renan, grande privilégio você vistando o blog...

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  8. .

    Muito bom, meu querido, parabéns pela criatividade.
    Abraços.

    .

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  9. Vitão adorei vc escreve muito bem, já virei fã
    parabéns

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