sexta-feira, 19 de março de 2010

NARCISO


Você é muito bonito! Nossa, você é perfeito! Puxa, você já pensou em ser modelo, ator ou coisa assim?!
Comentários dessa natureza eram normais para ele, estava mais do que habituado ao assédio, tanto feminino quanto masculino, o último estava aumentando muito ultimamente. Pudera, nascera belo, crescera belo e agora com 26 anos e aparência de 19, atingira a perfeição, a síntese da virilidade e jovialidade em forma de pessoa.
Em relação à sua aparência não há muito o que descrever: Narciso de Caravaggio, era idêntico à obra. Não seria exagero nenhum dizer que o artista se inspirara nele, se isso fosse possível, é claro.
Não tardou muito para que Alexsandro, percebendo a enorme semelhança, tratasse logo de conservar e destacar seus trejeitos de Narciso. Cabelo, postura e até olhar eram influenciados pela figura mitológica. Sem contar que o jovem praticava natação desde criança, tinha 1,83 de altura distribuído num corpo magro e forte, parecia um lutador de esgrima.
A personalidade de Alexsandro era algo peculiar, principalmente quando se trata de jovens muito belos, que costumam ser fúteis e vazios. Esse não, tinha um excesso de humanidade no peito, preocupava-se em extremo com causas sociais. Era de fato sensível ao sofrimento do povo, sempre no meio da miséria, sempre militando em prol da nação brasileira que tanto sofre.
Cursou Serviços Sociais numa federal de Sâo Paulo, adorou o curso e atualmente trabalha de assistente social num projeto social de um bairro periférico de Sorocaba, interior de São Paulo.
Em relação às mulheres, sempre teve uma relação muito fácil com todas, isso é tão óbvio. Começou a beijar as garotinhas aos 15 anos, não antes por pura opção, e em um ano havia passado o rodo em quase toda a escola. Os outros meninos sempre cheios de inveja, ficavam pasmados tanto pela quantidade quanto pela qualidade. " O cara tem mel!" E assim seguiu pegando todas as gatas, modelos, dançarinas, secretárias - pegou uma juíza uma vez, tudo isso antes dos 20 anos.
A fartura gera tédio, e com um currículo invejável e um futuro promissor, Alexsandro entrou numa espécie de depressão, uma crise existencial que fez dele um questionador da própria beleza; o que estava fazendo de bom com ela e quem estava ajudando além de si próprio.
Em verdade sua beleza estava o atrapalhando, e a vaidade andava sempre a sua espreita, fiel companheira do seu rosto enigmático. O projeto social tornara-se muito pouco para sua grandiosa alma, tinha que se doar mais, se entregar.
Com muita reflexão e silêncio concretizou um nobre plano. Decidiu que amaria- nem que por uma noite- garotas excluídas pela sociedade, marginalizadas que nunca seriam dançarinas desses programas bobos de auditório, moças que não são capas de revistas de beleza e dieta( paradoxalmente são elas que compram tais revistas). Resumindo, dedicaria-se às que ninguém querem, sequer existem.
Sendo ele muito metódico e disciplinado, decidiu que amaria 15 dias por classe, sim ele dividiu por classes. Estabeleceu também algumas poucas regras que jamais poderiam ser quebradas: Não deveria sair com uma garota por mais de duas vezes; jamais dormiria ao lado de uma garota, e a última e mais importante: em hipótese alguma contaria sobre seu plano a quem quer que fosse, nem sobre ameaça de morte.
Iniciou pegando gordas e obesas, algumas até mórbidas, nenhuma dificuldade, apenas alguns arranhões e dores superficiais nas costas. Quinzena seguinte só saiu com deficientes: cadeirantes, cegas, surdas-mudas( chegou a aprender libras), braços amputados, deformadas, acidentadas. Dedicou-se também às drogadas, moradoras de rua, mendigas, mulheres de poucos dentes na boca. Deu uma atenção especial, isso é: um mês, a senhoras acima dos 50 anos, todas elas corroídas pela ação do tempo. Sentia em seus lábios um leve jogo das dentaduras soltas nas bocas, achava a sensação gratificante. visitou por uma semana orfanatos, dando selinhos e brincando com as menininhas órfãs, que acabaram o confundindo com um anjo que descera dos céus para lhes fazerem felizes.
Teve um encontro muito insólito também com uma cigana de uns 60 anos. Ela estava no centro da cidade, Praça Coronel Fernando Prestes, pedia para ler as mãos dos que passavam apressados, cheirava urina seca e tinha dentes de ouro na boca. Vendo o herói romântico chegar ao seu encontro, olhou em seus olhos e disse: "Sabia que você viria". Os dois se beijaram no meio da praça em plena luz do dia, calor de 40 graus. Alexsandro saiu satisfeito com um leve e azedo gosto de vômito hospitalar na boca.
O que mais lhe agradava nessas experiências era sentir a alegria das mulheres, que nunca tinham saído com ninguém tão exuberante, ostentá-lo para a sociedade, como numa espécie de vingança, uma jóia recém conquistada. Todos olhavam perplexos e curiosos.
Porém, em um ano de missão o número de pobres moças apaixonadas pelo rapaz era enorme, o efeito colateral de sua façanha o assustava, pondo em jogo seu ato missionário. Pois ao abandonar suas amantes, para continuar sua caminhada, deixavá-as piores do que estavam sem tê-lo conhecido, o prazer do encontro não compensava a dor da despedida.
Não pode continuar seu projeto, cessou fogo. A depressão novamente fez morada em seu coração, abaixou a cabeça e se calou, sentia muito remorso. Não conseguiu dormir durante dias...
Após dois meses de total recesso e pura reflexão, Alexsandro achou nova forma de canalizar melhor sua energia e usar seu bem mais precioso em outro tipo de empreitada. Sairia com as burguesas, a classe média alta, e se vingaria, a seu modo, dos ricos, que só tem olhos para seus bens, um justiceiro. Seu plano: após se aproveitar das patricinhas, daria um jeito de dizer que elas não prestavam, eram fúteis e insignificantes, comparariá-as com prostitutas, afirmando que são bem piores que essas, pura agressão verbal.
Treinou durante um mês, escolhendo frases que pudessem humilhar, constranger, ofender e detonar as suas pretendidas.
Na noite sorocabana não foi fácil encontrar toda essa canalhada, alvo de sua missão. Foi num barzinho chamado "Expresso", cheio de gente imprestável, toda essa merda que sorri com bebidas na mão. Fisgou uma fisioterapeuta, que saiu chorando minutos depois de beijos e palavras, ela disse que nunca fora tão humilhada em toda sua vida, o garoto havia começado com estilo.
Estava de alma lavada, a missão ia muito bem obrigado, o projeto social fazia mais sentido agora, ele cria que tinha uma causa em favor dos fracos e oprimidos, estava obcecado pela vingança frente as garotas de alto poder aquisitivo. Arrasava com todas, não ligava no dia seguinte nem nunca mais, tratavá-as como objetos e fazia com que se apaixonassem por ele, para assim sentir o sabor de dar-lhes um fora, que muitas tinham que procurar um analista após se relacionarem com Narciso.
As lágrimas femininas era seu pagamento mais justo.
Num trabalho de rotina, sentado na cama do motel, que como sempre a garota iria pagar, Alexsandro acabou exagerando no vinho e estava um pouco entorpecido. Deixou-se levar levar pela ocasião abandonando um pouco seu profissionalismo. Conversou muito com a menina, coisa que nem no plano anterior fazia. Percebia algo diferente, fixavá-a seus olhos nela, era distinta, não era somente bela, transcendia a tudo que conhecia. Não conseguiu agredi-la como sempre fazia, nem abandoná-la de imediato. Imaginava como prolongar seu momento com a garota, vê-la mais vezes, quebrar suas regras, talvez, por que não?
Chegou a hora de abandonar sua missão? Ora, já tinha feito tanto, talvez chegasse o momento de descansar e viver normalmente com uma mulher. Esposa?! Puxa, que viessem outros e continuasse seu legado. Amava a moça, tinha uma áurea mágica inexplicável, era sua escolhida.
Após horas de paixão quebra sua regra mais antiga, adormece ao lado da garota. Realmente ela o havia pegado firme, talvez o amasse também.
Acorda com a cabeça pesada e a sensação de ter dormido por décadas, algo pulsa diferente em suas veias, sente o rosto formigando anestesiado.
O berro foi tão gutural e desumano, que acordou até o mundo dos mortos. Alexsandro estava sem os dois olhos da cara, feito uma caveira. No lugar haviam dois buracos tapados com gaze, quentes de sangue coagulado.
Não era um pesadelo, a realidade nauseante provocava espasmos e semidesmaios. Na escrivaninha ao lado uma carta que reproduzirei na íntegra:
"Não poderá ler essa carta, e nenhuma outra, lamento. Gostei muito de você, acho que eu te amo, nunca te esquecerei. Mas Narciso foi morto por ostentar sua beleza. Se um olho te faz pecar o arranque para que não possas mais contemplar sua imagem. Nada pessoal, você é especial. Mas tenho uma missão. Adeus!