domingo, 19 de dezembro de 2010

Solitários Bebedores

A imagem sempre lhe despertara interesse e curiosidade; (admiração?). Tanto que podia lembrar, ainda criança, quando cumprindo ordens da mãe ia chamar o pai, de fogo no boteco de costume, se via a imagem ficava observando questionador.
Pois bebida é coisa coletiva, pensava, ainda mais num bar, ambiente tão sociável, uma rede em sintonia oculta. De fato, um homem ali bebendo sozinho é uma nota desafinada na melodia, destoado da composição harmoniosa da obra.
Nunca deixava de notar algum bebedor solitário que encontrava nos tantos e mais variados bares que entrava. Identificava rapidamente o sujeito, acho que era a primeira coisa que fazia ao entrar num bar. Depois olhava interessado naquela espécie rara, logo as perguntas fervilhavam: o que ele faz aqui? por quê? o que deve estar pensando?
Continuando a beber, distraia-se entre goles e galeras, e quando voltava os olhos a procura do bebedor solitário, ele já não mais estava ali, desaparecia instantaneamente, como se nunca houvesse estado ali, era sempre assim que ocorria.
Acontece que hoje, marcou com um amigo dos tempos de colégio. Beber, sorrir e recordar bons e velhos tempos. Num bar do centro - nem chique nem pulgueiro - oito horas da noite o amigo liga dizendo que vai se atrasar um pouquinho. Enquanto espera identifica num cantinho prosaico do bar um bebedor solitário.
É acometido pelas mesmas dúvidas já antigas enquanto analisa obliquamente aquela imagem tão sua familiar. Percebe a mesma feição, imagina até que tem os mesmos gestos, de quem não tem passado... nem futuro. Talvez bebedores solitários sejam notados somente por ele, e pelos garçons, que na verdade somente enxergam suas garrafas quando se esvaziam, com esse pensamento entorna outro gole.
O amigo liga. Não vem mais, contratempos familiares. Liga então pra outros amigos, os de sempre, óbvio já tinham programa. A amiga também não pôde, sem um aviso prévio não funciona com mulher. Esgotou a agenda do celular e permaneceu sozinho.
Nota que o cantinho prosaico do bar está vazio, o bebedor solitário havia sumido. Sorri diante da constatação. Mas um sorriso calmo que é mais um sacudir do corpo do que propriamente um sorriso.
Continua a beber, bebendo e pensando. Refletindo fatos e pessoas, avaliando-se. A noite se torna mais densa e pesada. Ele, entre angustiado e entediado acaba triste, a profunda e inevitável solidão dos homens. Seu rosto adquire um suave aspecto soturno, quase neutro.
É tarde, o bar está quase vazio, seu copo subiu e desceu várias vezes. Ele permanece estático, com uma expresão vaga e um olhar distante. Em breve desaparecerá invisível com a noite, sem se dar conta que desvendou o enigma do bebedor solitário.