domingo, 20 de março de 2011

Foi a Chuva

Era pra ter sido um jogo normal como tantos outros. Ele chamando a todos de casa em casa, ele o dono da bola que convidara o time adversário pruma partida depois da aula, ele o mais entusiasmado e que melhor jogava. Um acordo mudo sempre ditou que as coisas deveriam ser assim, essas eram suas responsabilidades como líder do time, ele gostava muito disso.
Era pra ter sido um jogo normal, mas não foi. Passados vinte anos dessa partida, o fio do tempo assim esticado mostra que de fato muito mais que um jogo ocorreu naquele dia. Não pelo fato de ter jogado a melhor partida de sua vida, não por isso. Foi a chuva, foi a chuva...
Começou em forma de garoa rala mas logo progrediu tornando-se mais consistente, diria que até então suportável porém já atrapalhando a visão dos jogadores. Nisso a luz minguou como se houvessem a apagado dum interruptor. Estando o jogo quase por acabar, prosseguiram na disputa. A chuva tornava a ocasião mais solene. Tudo foi interrompido quando um trovão escandaloso caiu fazendo papel de apito final, mal se despediram, cada qual correu pra sua casa, outro dia continuavam. A chuva desabou barulhenta feito uma torcida organizada.
O garoto hesitou um pouco - ainda no campo - por ele continuavam; ora, uma chuva acabar com um jogo desses, que cambada de medrosos. Algo dizia que partida semelhante seria difícil, talvez impossível - não houve igual mesmo. Percebeu então que estava sozinho no campo, sozinho com sua bola na mão. Desconfiava de algo: tudo normal e nada normal, estava acontecendo sabe-se lá o quê. Voltaria pra casa andando lentamente, haveria de descobrir o que se passava, obedeceu a uma ordem maior.
No caminho a chuva amenizou, tornou-se a garoa rala de antes. A escuridão deu uma aliviada, um quase estio que mais lembrava uma esperança brotou.
Aí aconteceu, foi de súbito e com uma violência animal: uma glória o arrebatou de forma inexplicável, um gozo dominou sua alma. Entrou num transe de esplendor e alegria. O universo se decodificou lhe fazendo sentido, Deus, as estrelas, soube de tudo. Chorou de emoção agradecendo algo desconhecido, uma ânsia de viver lhe fazia suspirar, coração transbordava de amor e ternura.
Encontrou o Santo Graal quando chegou em casa. Pais, irmã, cachorro abanando o rabinho. Sua vida estava ali, completa. Não precisava de mais nada, pudesse congelar o momento ímpar. Tomou um banho, jantou e foi dormir. Tanta felicidade o havia golpeado, estava exausto. Adormeceu com um sorriso que iluminava o quarto escuro.
A mãe estranhou pois não faltava da escola. Esperto, usou a chuva de argumento para inventar um resfriado, incontestável. Nessa, conseguiu faltar o resto da semana. Algo estava desequilibrado dentro dele, sua essência havia se dissipado. Foi arrancando pela raiz sua alegria de viver, ficara um buraco na sua alma, encontrava-se todo oco.
Sem sintomas de gripe e sem querer retornar para a escola, os pais desconfiaram. Mal saía do quarto. Questionaram. Foi a chuva...cortou a frase nesse ponto, ia dizer que a chuva havia levado sua alma para algo desconhecido e distante, mas soaria estranho, algo como loucura. Limitou-se a vestir seu uniforme e ir pra aula, estou bem, mentiu.
Disfarçou tão bem que na escola nem notaram. Nem os amigos conseguiram ver a melancolia em seu sorriso, em seus gestos, em seu futebol, não conseguiram ver a tristeza em sua vida. Tempos depois, raras vezes o disfarce conseguia enganar a si próprio, distraia-se com amenidades, uma garota, festas, trabalho, mas por mais longe que fosse sua distração a tristeza sempre estava lá viva e forte o esperando de braços abertos. Aprendeu a conviver assim. Foi a chuva, levou numa enxurrada seu motivo de viver, sua felicidade. É claro que naquele dia de esplendor se despediu pra sempre.
Hoje, vinte anos depois, o clima está com a mesma cara daquele dia, nublado e cinzento. Sua memória é ativada e o transporta para aquele jogo. Numa atitude compulsiva pega o carro e dirige por uma hora rumo ao campo onde tudo aconteceu. Encontra loteamentos e asfalto, e a chuva caindo. Sai do carro e começa a fazer o mesmo trajeto, desesperado, quer encontrar o que perdeu naquela chuva. Para em frente à casa dos pais que hoje moram no céu, não contém as lágrimas. Mas cadê o potinho de ouro atrás do arco-íris, cadê o potinho, cadê o arco-íris, não acha a felicidade perdida. A chuva aumenta, volta pro carro. Nada encontra, nunca encontrará.
Seguirá assim, passaram vinte anos, passará mais trinta e vai ser assim pra sempre, até a morte, conviver com isso. Foi a chuva, aquela chuva, que chuva.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Perna Quebrada

Foi de moto. Um carro o fechou inesperadamente, e ele acabou perdendo o controle. Acidente que poderia ter lhe feito esticar as canelas mais cedo- terno mal cortado, coroa de flores etc. Sorte ter apenas quebrado a perna. Tudo bem que foi grave, uma fratura exposta, sim, isso é verdade. Teve de colocar aquelas gaiolas, que fato desagradável. Mas diante das circunstâncias, poderia ter sido pior. Bem pior. Pode-se dizer que mesmo assim tivera sorte.
Afastamento no trabalho, muletas e repouso. Nova rotina que se desenhava lenta e enfadonha em seus dias, e duraria alguns meses. Seu cotidiano tornaria-se morno, bem diferente da vida agitada que levava com seus dois empregos: era metalúrgico, e motoboy nas horas vagas. Agora, pilotaria o controle remoto da TV, melhor esquecer essas coisas.
Nesse ínterim médicos e hospital, e depois casa, e medicamentos, e cuidados excessivos, a tão esperada data do casamento do primo chegou. O acidente na mesma semana da festa ofuscou o brilho de grandes expectativas. Todas as atenções da semana estiveram voltadas para o acidentado. Mas a data festiva chegara, e por nada poderiam faltar, o primo crescera junto com a família. Era bem dizer de casa. Seria mesmo muita desconsideração a ausência da família no casório.
Ficou decidido que iriam. Uma obrigação. Todos deveria ir. É bem verdade, que era uma obrigação prazerosa - se isso é possível, afinal ninguém queria perder aquela ocasião tão comentada entre a família e os amigos. E o garoto com sua perna quebrada, por precaução ficaria em casa. As coisas estavam ainda muito recentes, tratamento no início, perigo de num lugar lotado, Deus o livre, alguém tropeçar em sua perna. Não, não poderia ir. Era sensato que ficasse. Resignado, ele aceitou o repouso forçado sem nenhuma objeção.
Já pela tarde, a casa criou vida. Sua família numerosa, mais tias e tios e primos vindo do centro da cidade, empenhavam-se na tarefa de ficarem perfeitos para a festa. A irmã que não se acertava com o cabelo, a mãe desacostumada com o vestido usado pela última vez a dez anos atrás, a tia ajeitando a priminha num conjunto muito apertado - a criança estava virando mocinha; o pai preocupado com o horário, vamos perder a entrada dos padrinhos. Tudo isso talvez fosse o melhor do casamento, algo de que ele não poderia fazer parte. O burburinho crescente numa atmosfera de excitação e alegria, misturava-se com os variados perfumes no ambiente, êxtase.
O garoto permanecia na sala, sentado no sofá, apoiando sua perna num monte de travesseiros. A televisão ligada, assistida sem interesse, era a tentativa de não raciocinar sobre o que estava acontecendo. No meio do "se arrumar para algo importante", alguns até sentiam pena, era chato estarem tão animados perto dele, sentado catatônico no sofá. Mas jamais sacrificariam a festa. Nunca. Os mais jovens tentavam ignorar, não achavam justo acidentes em semanas como essa, não tinham culpa de nada daquilo. Ele faria o mesmo se tivesse no nosso lugar, absolviam-se.
O garoto percebia tudo, os olhares, os ressentimentos. Poderia Adivinhar o que cada um pensava, via sobretudo constrangimento. Uma perna quebrada, o grande fiasco da noite. Como gostaria de estar também se arrumando, pertencer àquilo, se envolver, se entregar, que tristeza estava, sendo excluído da família. Passaria a noite sozinho e diante da constatação, imaginou como seria bom se alguém se compadecesse de sua miséria e decidisse passar a noite cuidando dele. Não tinha ninguém, nenhuma namorada nem amigo, sequer tinha um cachorro. Era uma árvore de natal em setembro. Inútil, esquecido.
No momento em que foram deixando a casa, despedindo-se aos poucos, a coisa piorou. Parece que até então não lhe havia caído a ficha que iriam mesmo sem ele, sentiu um nó na garganta e engoliu seco quando viu que era real, estava acontecendo. Por pouco não chorou quando a mãe, coitada, nunca se divertia, preocupada e talvez um pouco culpada, disse que ligasse qualquer coisa. Traidora, pensava ele. Irá me abandonar no momento em que mais preciso. Não disse nada, ofereceu-lhe a face para o beijo de Judas e ainda pediu que divertisse.
A casa enfim vazia, ele desolado. Poderia torcer para que chovesse, mas seria inútil. A noite estava límpida, uma noite agradável diga-se de passagem. E ele não era mesquinho. Sentiu-se a mais infeliz das criaturas. Coloque toda a areia do mar numa balança e ainda assim não daria o peso de sua tristeza. Estava vulnerável, fragilizado. Analisava sua perna, sua cina. Demoraria muita para se recuperar? Buscou na memória fatos e pessoas, felicidades. A velha frase: Só quando se perde é que se dá valor, pensou nisso também, em como era verdadeira a expressão. Imaginava o casamento, os sorrisos, as possibilidades; e ele ali com a perna estrupiada, sozinho num sofá.
Por fim, cansou-se de auto piedade e ficou sem paciência para reflexões dolorosas, estava com sono e dormiu ali no sofá mesmo. O sono, a melhor das fugas.
Quando todos chegaram e o viram ali, quase angelical dormindo, a perna apoiada nas almofadas. A consternação foi geral. Sentiram muita dó e a mãe até lacrimejou. A culpa veio, mas uma culpa suave, justa, não demorou e ela se dissipou no ar e todos foram dormir sem maiores sofrimentos. levaram o rapaz e sua perna quebrada para o quarto, e ficou mudamente combinado que diriam mal da festa, cerveja quente, música ruim, cerimônia longa. Amenizariam aquela noite dolorida, que por capricho do destino viera em hora errada e fizera o rapaz perder a festa do ano.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Dez anos depois

Sabe aquelas garotas lindas do colégio? Aquelas que antes dos 18 anos já são poderosas e superiores, donas de si. Enquanto nós, garotos, ainda atravessamos uma transição da puberdade, mudança de voz, pêlos surgindo e outras coisas mais. Então, essas meninas quase sempre também são muito malvadas com tipos comuns feito nós - maioria dos casos. Elas gostam de se aproveitar na hora de um trabalho, de um favor, chegam até a sorrir e nos enganam facilmente. Mas quando o assunto são beijos e carinhos procuram aqueles caras que seriam capitães de times se estivéssemos nos EUA.
Mas agora, passado mais de uma década da época do colégio, que podemos encontrá-las casualmente por aí - e que coisa ótima é encontrá-las por aí - a coisa primeira que surge é constatar se ainda estão belas. Observado esse detalhe muito relevante, surgindo uma oportunidade de conversa e sempre surge, pois elas sempre estão mais humildes, talvez por maturidade, resta a curiosidade de saber o que estão fazendo da vida, casamento, trabalho....etc.
Mas o deleite mesmo, é encontrar a garota que fora a mais gata da escola pesando uns 40 quilo a mais, é um prazer indizível, uma éspecie de consolo e vingança. Saber que ela está mal casada, mal amada e cheia de filhos histéricos. Acho que todos garotos já sentiram isso e sabem do que estou falando.
Porém ontem aconteceu diferente. Descendo de um ônibus no terminal, deparei-me com uma morena estonteante sentanda num dos bancos, aguardando o ônibus. Ela estava séria, olhar fixo e profundo em algum ponto, que eu logo imaginei serem meus olhos. Mas não podia ser, era muito bela para olhar prum comum feito eu. Porém ainda sim continuei olhando e ela parecia olhar também, quanta ingenuidade minha. Foi aí que ela sorriu me cumprimentando e eu percebi: Tati.
Tati foi das gatas do colégio, porém sempre muito amável e simpática, não era malvada. Só não me dava bola, e isso nada mais era que bom senso puro.
Acontece que dez anos se passaram e ela continua linda, não pude sentir o prazer mórbido de vê-la feia. Tati está mais bela do que nunca e eu fiquei com sua imagem na cabeça.
Depois do cumprimento, eu fiquei do lado de fora do terminal, observando-a com discrição. Realmente linda. Então o ônibus dela chegou e eu a perdi de minha vista...eu a perdi de minha vida. Que tolice a minha.