terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Perna Quebrada

Foi de moto. Um carro o fechou inesperadamente, e ele acabou perdendo o controle. Acidente que poderia ter lhe feito esticar as canelas mais cedo- terno mal cortado, coroa de flores etc. Sorte ter apenas quebrado a perna. Tudo bem que foi grave, uma fratura exposta, sim, isso é verdade. Teve de colocar aquelas gaiolas, que fato desagradável. Mas diante das circunstâncias, poderia ter sido pior. Bem pior. Pode-se dizer que mesmo assim tivera sorte.
Afastamento no trabalho, muletas e repouso. Nova rotina que se desenhava lenta e enfadonha em seus dias, e duraria alguns meses. Seu cotidiano tornaria-se morno, bem diferente da vida agitada que levava com seus dois empregos: era metalúrgico, e motoboy nas horas vagas. Agora, pilotaria o controle remoto da TV, melhor esquecer essas coisas.
Nesse ínterim médicos e hospital, e depois casa, e medicamentos, e cuidados excessivos, a tão esperada data do casamento do primo chegou. O acidente na mesma semana da festa ofuscou o brilho de grandes expectativas. Todas as atenções da semana estiveram voltadas para o acidentado. Mas a data festiva chegara, e por nada poderiam faltar, o primo crescera junto com a família. Era bem dizer de casa. Seria mesmo muita desconsideração a ausência da família no casório.
Ficou decidido que iriam. Uma obrigação. Todos deveria ir. É bem verdade, que era uma obrigação prazerosa - se isso é possível, afinal ninguém queria perder aquela ocasião tão comentada entre a família e os amigos. E o garoto com sua perna quebrada, por precaução ficaria em casa. As coisas estavam ainda muito recentes, tratamento no início, perigo de num lugar lotado, Deus o livre, alguém tropeçar em sua perna. Não, não poderia ir. Era sensato que ficasse. Resignado, ele aceitou o repouso forçado sem nenhuma objeção.
Já pela tarde, a casa criou vida. Sua família numerosa, mais tias e tios e primos vindo do centro da cidade, empenhavam-se na tarefa de ficarem perfeitos para a festa. A irmã que não se acertava com o cabelo, a mãe desacostumada com o vestido usado pela última vez a dez anos atrás, a tia ajeitando a priminha num conjunto muito apertado - a criança estava virando mocinha; o pai preocupado com o horário, vamos perder a entrada dos padrinhos. Tudo isso talvez fosse o melhor do casamento, algo de que ele não poderia fazer parte. O burburinho crescente numa atmosfera de excitação e alegria, misturava-se com os variados perfumes no ambiente, êxtase.
O garoto permanecia na sala, sentado no sofá, apoiando sua perna num monte de travesseiros. A televisão ligada, assistida sem interesse, era a tentativa de não raciocinar sobre o que estava acontecendo. No meio do "se arrumar para algo importante", alguns até sentiam pena, era chato estarem tão animados perto dele, sentado catatônico no sofá. Mas jamais sacrificariam a festa. Nunca. Os mais jovens tentavam ignorar, não achavam justo acidentes em semanas como essa, não tinham culpa de nada daquilo. Ele faria o mesmo se tivesse no nosso lugar, absolviam-se.
O garoto percebia tudo, os olhares, os ressentimentos. Poderia Adivinhar o que cada um pensava, via sobretudo constrangimento. Uma perna quebrada, o grande fiasco da noite. Como gostaria de estar também se arrumando, pertencer àquilo, se envolver, se entregar, que tristeza estava, sendo excluído da família. Passaria a noite sozinho e diante da constatação, imaginou como seria bom se alguém se compadecesse de sua miséria e decidisse passar a noite cuidando dele. Não tinha ninguém, nenhuma namorada nem amigo, sequer tinha um cachorro. Era uma árvore de natal em setembro. Inútil, esquecido.
No momento em que foram deixando a casa, despedindo-se aos poucos, a coisa piorou. Parece que até então não lhe havia caído a ficha que iriam mesmo sem ele, sentiu um nó na garganta e engoliu seco quando viu que era real, estava acontecendo. Por pouco não chorou quando a mãe, coitada, nunca se divertia, preocupada e talvez um pouco culpada, disse que ligasse qualquer coisa. Traidora, pensava ele. Irá me abandonar no momento em que mais preciso. Não disse nada, ofereceu-lhe a face para o beijo de Judas e ainda pediu que divertisse.
A casa enfim vazia, ele desolado. Poderia torcer para que chovesse, mas seria inútil. A noite estava límpida, uma noite agradável diga-se de passagem. E ele não era mesquinho. Sentiu-se a mais infeliz das criaturas. Coloque toda a areia do mar numa balança e ainda assim não daria o peso de sua tristeza. Estava vulnerável, fragilizado. Analisava sua perna, sua cina. Demoraria muita para se recuperar? Buscou na memória fatos e pessoas, felicidades. A velha frase: Só quando se perde é que se dá valor, pensou nisso também, em como era verdadeira a expressão. Imaginava o casamento, os sorrisos, as possibilidades; e ele ali com a perna estrupiada, sozinho num sofá.
Por fim, cansou-se de auto piedade e ficou sem paciência para reflexões dolorosas, estava com sono e dormiu ali no sofá mesmo. O sono, a melhor das fugas.
Quando todos chegaram e o viram ali, quase angelical dormindo, a perna apoiada nas almofadas. A consternação foi geral. Sentiram muita dó e a mãe até lacrimejou. A culpa veio, mas uma culpa suave, justa, não demorou e ela se dissipou no ar e todos foram dormir sem maiores sofrimentos. levaram o rapaz e sua perna quebrada para o quarto, e ficou mudamente combinado que diriam mal da festa, cerveja quente, música ruim, cerimônia longa. Amenizariam aquela noite dolorida, que por capricho do destino viera em hora errada e fizera o rapaz perder a festa do ano.

14 comentários:

  1. Olá nós do blog Madness agradecemos por seguir nosso blog já estamos te seguindo também.

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  2. Nossa , demais , muito bom mesmo ! parabéns Vitor .

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  3. Muito obrigado Tayna, é sempre um prazer vê-l por aqui.

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  4. Parabéns Victor, perfeito. Como vc mesmo disse e eu concordo, tudo poderia ser pior rs

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  5. ...
    Ler seus textos é tão agradável quanto conversar com vc...assim sendo seguindo a sábia tese de Holden Caufield...de que grandes escritores nos fazem ao final de seus textos desejar poder iniciar com eles uma amizade...só p poder falar e sobretudo ouvi-los....hum...sendo assim " AMIGO" acredite VC É GRANDE...
    PS:estou esperando o próximo...

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  6. Valeu Milenes, muito obrigado pelas palavras. Em breve trarei novos textos, ando inspirado ultimamente.

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  7. Muito bom o post, essa história me fez lembrar um acidente que um amigo meu teve esses dias, so que ele teve de amputar o pé tem dois meses ja e ainda está no hospital...

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  8. Oi Victor, gostei do blog e vou seguir tbm. Gostei dos seus textos. Só achei que tem muitas vírgulas na construção, mas pode ser só coisa minha.
    Não entendi bem o lance da "ironia" no seu comentário... Eu namoro a distância e escrevi o que acontece com muitas pessoas que tbm namoram assim.
    Anyway, um ótimo começo de final de semana pra ti. Afinal, amanhã já é sexta :D

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  9. "ofereceu-lhe a face para o beijo de Judas e ainda pediu que se divertisse." Odeio relações assim, pessoas das mais falsificadas. E achei incrível tudo que uma perna quebrada causou, desde dor a comoção.

    Abraço! ;)

    http://anpulheta.blogspot.com

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  10. Texto despretensioso, porém muito bem escrito. Sem rebuscamentos desnecessários. Bom na sua simplicidade.Bom demais de ler. Valeu Vitão.

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  11. Valeu Zélão, seu comentário tem sido bem o que eu busco, simplicidade. Valeu mesmo.

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  12. gostei do discurso, Vitão! bem "cabido".

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  13. Simples e muito bem escrito. Parabéns.

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  14. Hello!!! agradeço seu carinho ja estou te segundo e sempre q quiser meu blog estara la com novidades do mundo japones kiss bye-bye
    http://harahaira.blogspot.com

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